25 de abril de 2021

Pai

 




 Fui criada na beira da praia, no vaivém das ondas e das marés.

Perdi cedo o medo do mar e aprendi a guardar-lhe respeito. Culpa de meu pai. Atirou-me ao mar, do barco e sem pena alguma, sob os protestos e os lamentos de minha mãe. Na vida, cheguei a maldizer meu pai umas poucas vezes e essa, sem dúvida, foi uma delas. Tinha métodos muito pouco ortodoxos.
Nesse dia aprendi, não somente a nadar, mas também a perdoar. Penso que foi mais fácil para mim, do que foi para a minha mãe. Eu ao menos tinha a compensação de finalmente ter vencido um medo, que provavelmente me acompanharia pela vida afora.

Meu pai era um homem forte, não só fisicamente. Nunca transpareceu fraquezas ou hesitações. Por um bom tempo pareceu-me a personificação de algum ser mitológico, qualquer coisa entre Hércules e Poseidon. O facto é que meu pai, mesmo a despeito de eu ser uma menina, não me dispensava aconchegos e delicadezas ou carinhos. Eu achava encantador o trato gentil que outros pais, (menos hercúleos) dispensavam às suas filhas e confesso muitas pontas de inveja por isso; mas meu pai queria-me Atena, ou qualquer coisa parecida, no caminho até ela.

Talvez estivesse errado, diriam muitos. Outros (muito poucos), diriam certo.

Desde pequena aprendi a ser forte ou ao menos parecê-lo.

Então um dia saímos de barco para pescar. Teria eu na altura, uns 12 anos. O que é certo é que estranhei o facto de pela noite, já na volta, sentir-me enjoada. Nunca tal tinha acontecido e eu não conseguia compreender o porquê. Eu, que praticamente cresci naquele barco e naquele mar. Certo é que foi violento e acabei por deixar no mar tudo o que estava no estomago e também toda a minha “força” ou a parte “construída” de mim, da qual meu pai tanto se orgulhava.

Senti-me frágil e envergonhei-me. Quase pedi desculpas pela minha fraqueza, mas fiquei calada a olhar para ele…cabisbaixa, pequenina, derrotada.
O ser mitológico resolveu (para minha mais absoluta surpresa) com um sorriso e a ternura de um anjo, abraçar-me. Talvez devido a esse espanto, acabei por derramar um oceano inteiro em seu peito; e assim fiquei, por horas e horas e aos soluços.

Muitos abraços recebi durante toda a minha vida e muitos mais irei receber, certamente; mas nenhum poderá ser comparado àquele, onde toda eu cabia. O meu bem e o meu mal, o  meu grande e o meu pequeno, o meu tudo e o meu nada; e apesar da instabilidade das ondas debaixo de nós, não haveria outro chão mais seguro que o vão daquele abraço com sabor a maresia e a pele de meu pai.

Sim, aprendi com meu pai a ser forte. A não precisar de ninguém, a correr riscos, a ter medo sem me amedrontar, mas naquele dia sem perceber, ensinei-lhe algo. Ensinei-lhe o abraço.

Bem mais tarde, já eu adulta… pediu-me desculpas por todo o seu “mau jeito” em demostrar amor.

Eu sorri.

Dali, felizmente seguiram-se muitos abraços, até o último.
Inesquecível, pelos piores motivos.

Fui eu quem lhe deu a notícia do cancro nos pulmões.
Deve ter sentido coisa parecida com o que eu senti aos 12. Quisera eu dar-lhe o que me deu. Fiz o que pude e ainda sinto o peito molhado e os soluços do meu pai menino. Abracei-o... Por horas. Todo ele. O seu bem e o seu mal, o seu grande e o seu pequeno, o seu tudo e o seu nada.

Não sei se lhe pude servir de grande coisa, mas duvido que em toda a sua vida ele tivesse sido tão amado como foi naquele dia. Por mim, pelo meu peito e pelo vão do meu abraço.

Sei que estás por aí em algum mar a pescar, meu pai; mas quero que saibas que quando preciso de me sentir realmente amada, vou para a beira do mar a espera de sentir o cheiro do teu abraço.

Ao menos tenho a maresia e só por isso….sorrio


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