21 de agosto de 2017

O Fio da Meada


Eu já quase me vejo por dentro

e tanto

 que quase sinto na boca o gosto que tenho

essa doce sensação de encontrar o fio da meada

da chave perdida da gaiola fechada

das coisas que voam por dentro de mim.

M. Lucas


O último poema que te escrevo

Amar é um risco. Para mim sempre foi.
Para uns, um dado garantido; para mim, um de seis lados.
Para alguns, um jogo de cartas marcadas; para mim, um castelo delas.
Para uns Terra, para mim Marte

Errei todos os meus amores até hoje.
Não foi por mal ou por propósito, é como costumo dizer.
Na ânsia de acertar o alvo, falhei-o redondamente.
Não por querer, talvez mais por incompetência ou dissonância

Peço perdão por esperar mensagens no fundo das garrafas
por ter procurado aquilo que talvez não existisse,
por ter esperado o dia que nunca vem
por não ter tido certezas quando achavam que eu devia

O fim de um amor deixa os pés exaustos e as mãos vazias 

e o meu silêncio será o último poema que te escrevo



M. Lucas


6 de agosto de 2017

Escrever


Um dia destes me disseram:
Porque escreves se tão poucos comentam?
A resposta só me ocorreu agora.


Escrevo para libertar ideias e cansaços
Há aqueles que pintam, que constroem  templos, que salvam vidas, que cantam, que dançam
Há quem o faça para viver, há quem o faça por recompensa, há quem o faça por prazer. (Essa sou eu)

Eu não escrevo para que me leiam. 
Escrevo para ler-me à mim própria. 
Dar à luz todos os "eus" que nunca nasceram.

E por vezes não há espelho onde eu pareça tão bela...



M. Lucas
Desconheço a autoria da imagem, mas é linda


“Sou apenas um escritor. Um cultivador. 
Um jardineiro. Um florista. 
A minha felicidade flutua entre o estrume 
que deponho na raiz das palavras 
e o aroma que me excita quando acabo de as colher.”

Joaquim Pessoa



 "Escrever é que é o verdadeiro prazer; ser lido é um prazer superficial."

Virginia Woolf



Distância


Oiço-te na ausência de todas as coisas
Nesse silêncio que habita em mim quando não estás

Existes, mesmo contra a vontade de muitos
Contra todas as frias probabilidades matemáticas
Contra as distâncias dos oceanos e das terras
Pela força da minha vontade talvez, 
ou pela coincidência dos teus gestos

Gasto _ por agora_ as últimas metáforas 
e cansada de lucidez adormeço 
à espera de que me ergas as pálpebras 
num beijo de matar todas as sedes

E só então eu te direi um segredo.

A minha felicidade alimenta-se de tudo o que habita em tua boca




M. Lucas