22 de outubro de 2017

A Correspondência

Para que um dia se entenda...


Maria, Maria, Maria, Maria, Maria, Maria, Maria, Maria, Maria. Maria, Maria.





A correspondência,
Giuseppe Tornatore.

23 de setembro de 2017

Voltar para casa



Sabe aqueles dias em que bate a vontade de fugir, estar só, no meio do nada, num lugar desconhecido? Sentia-me assim...confusa, feito pássaro fora do ninho. Apetecia-me sumir.
Um amigo estranhou a minha ideia e disse que nessas horas o melhor era estar no meio de amigos. Respondi que eu era um bocado bicho do mato...sem ter muita certeza de ser essa a verdadeira razão.
À caminho do Sul, abri a janela do carro.
Senti o calor do Alentejo e o vento no rosto.
Lembrei_me, de súbito,da infância...em que meu maior prazer acontecia sempre em uma manhã de domingo.
Era quando o meu pai me concedia um desejo.
E eu pedia sempre o mesmo.
Leva_me à um lugar que eu não conheça, pai.
Tive essa mesma sensação hoje, apesar de nem ser um domingo.
Senti meu pai ao meu lado e com os olhos marejados, de súbito entendi o porquê de estar aqui
Vamos pai...hoje sou eu que te levo para um lugar que não conheces.

Meu pai sem querer me ensinou que o desconhecido também pode ser a minha casa.


21 de agosto de 2017

O Fio da Meada


Eu já quase me vejo por dentro

e tanto

 que quase sinto na boca o gosto que tenho

essa doce sensação de encontrar o fio da meada

da chave perdida da gaiola fechada

das coisas que voam por dentro de mim.

M. Lucas


O último poema que te escrevo

Amar é um risco. Para mim sempre foi.
Para uns, um dado garantido; para mim, um de seis lados.
Para alguns, um jogo de cartas marcadas; para mim, um castelo delas.
Para uns Terra, para mim Marte

Errei todos os meus amores até hoje.
Não foi por mal ou por propósito, é como costumo dizer.
Na ânsia de acertar o alvo, falhei-o redondamente.
Não por querer, talvez mais por incompetência ou dissonância

Peço perdão por esperar mensagens no fundo das garrafas
por ter procurado aquilo que talvez não existisse,
por ter esperado o dia que nunca vem
por não ter tido certezas quando achavam que eu devia

O fim de um amor deixa os pés exaustos e as mãos vazias 

e o meu silêncio será o último poema que te escrevo



M. Lucas


6 de agosto de 2017

Escrever


Um dia destes me disseram:
Porque escreves se tão poucos comentam?
A resposta só me ocorreu agora.


Escrevo para libertar ideias e cansaços
Há aqueles que pintam, que constroem  templos, que salvam vidas, que cantam, que dançam
Há quem o faça para viver, há quem o faça por recompensa, há quem o faça por prazer. (Essa sou eu)

Eu não escrevo para que me leiam. 
Escrevo para ler-me à mim própria. 
Dar à luz todos os "eus" que nunca nasceram.

E por vezes não há espelho onde eu pareça tão bela...



M. Lucas
Desconheço a autoria da imagem, mas é linda


“Sou apenas um escritor. Um cultivador. 
Um jardineiro. Um florista. 
A minha felicidade flutua entre o estrume 
que deponho na raiz das palavras 
e o aroma que me excita quando acabo de as colher.”

Joaquim Pessoa



 "Escrever é que é o verdadeiro prazer; ser lido é um prazer superficial."

Virginia Woolf



Distância


Oiço-te na ausência de todas as coisas
Nesse silêncio que habita em mim quando não estás

Existes, mesmo contra a vontade de muitos
Contra todas as frias probabilidades matemáticas
Contra as distâncias dos oceanos e das terras
Pela força da minha vontade talvez, 
ou pela coincidência dos teus gestos

Gasto _ por agora_ as últimas metáforas 
e cansada de lucidez adormeço 
à espera de que me ergas as pálpebras 
num beijo de matar todas as sedes

E só então eu te direi um segredo.

A minha felicidade alimenta-se de tudo o que habita em tua boca




M. Lucas

31 de julho de 2017

O Capricho do Tempo


Agora que estás de volta
há mais amanheceres nos meus dias.
As borboletas também vieram 
desobedecendo as primaveras 
e um desassossego quase ritmado bate no peito,
teimosa e pontualmente antes de cada chegada tua.

Contemplo-te em silêncio,
meu modo mais sublime de dizer 
da "desimportância" das palavras 
à beira do teu abraço
E o meu interior perplexo
encharcado de cicatrizes e de receios 
desabrocha aos poucos e com delicadeza 
as paixões e os poemas que guardei só para ti




O tempo te trouxe de volta 

      e eu sorri...



M. Lucas

17 de julho de 2017

Desvarios




Dos desvarios de ontem
sobraram verdades desbotadas,
amores de um lado só.

e eu, que por ti jurei universos
engasguei-me numa ternura que não nasceu

é tarde demais para arrependimentos 
e as asas dos pássaros já voaram para longe dos versos
deixando em turbilhão as ilusões que criei por ti

....e eu que absurdamente tola, pensei um dia ser tão seguro 

este teu chão de estrelas cadentes.




M. Lucas

7 de julho de 2017

Incompletude



Não há muito para dizer sobre o que acabou
decerto que não acabou de repente 
com aviso de sirenes ou rufar de tambores
há coisas que acabam já na semente
vão "desvivendo" naturalmente 
serenamente como as folhas de outono
que sabem que devem e como cair

Tive por ti uma esperança maior que o teu braço
dei-te mais do que devia, pois faziam-te confusão os desperdícios
e eu que sou feita deles
aprendi a economizar moedas, palavras e carinho

Por muitas vezes eu fui feliz no teu colo 
e no meio de nossas “incompletudes” eu até encontrei alento
mas não encontrei  as rimas para os poemas 
de que nem fazias questão

e a cada palavra que calo

morre um pouco o canto 

que me faz viver.



Fazem-me falta os desperdícios...



M. Lucas

6 de julho de 2017

A tua boca





Era tão simples quando te esperava...

Porque não vinhas.

Era tão baço amar a outros...

Porque não vinhas

Eram tão mornos os beijos...

Porque não vinhas

Eram tão frios os dias...

Porque não vinhas


Porque vieste agora estragar a tristeza dos meus dias
e tatuar o verde dos teus olhos em minha retina?
Arrancas-me à força de existires, todos os poemas que guardei à chaves dentro do peito
E o sono foge-me à noite, simplesmente 

porque hoje

A tua boca existe.


M. Lucas

7 de junho de 2017

Uma Carta de Amor



Recebi o teu poema em uma carta fechada

Saí de casa apressada, sem chaves, sem nexo, sem juízo, sem carta.

Um sol a brilhar no peito, e sonhos inteiros à brotar dos olhos.

A carta continuará na mesa…fechada, guardada, selada.

Não despencassem tanto as letras quanto as ilusões, eu até leria o poema

mas deixa que descansem... 

a carta na mesa, 

o sol no meu peito

e este tanto que me brotou dos olhos.



Mª Lucas



Hoje deixa-me a mim só ser feliz,
com todos ou sem todos
ser feliz com o pasto e a areia,
ser feliz com o ar e a terra,
ser feliz,
Contigo,
Com tua boca,
Ser feliz


Neruda_in "Ode ao Dia Feliz"




4 de junho de 2017

O Sorriso dele


Se me perguntassem qual a coisa mais bonita do mundo, eu diria:

"O sorriso"
Se me perguntassem a segunda, eu diria:

"O sorriso dele"

Se me perguntassem a terceira:....

"_Calma, eu diria; Ele está a sorrir. Esperem que pare...não há nada mais belo agora!




Mª Lucas

A Outra Face


Imagem : Selma del Bosco


Eu não quero o que me define. 
Eu quero o meu avesso
o meu defeito
a minha  sombra
Quero o meu dia menos bom
a minha fraqueza
o que me afasta do comum
do óbvio ululante
o que me diferencia
o que me "indefine"



Eu não quero a minha máscara
a minha maquilhagem
o meu brilho
muito menos o sorriso
Quero o meu choro
a minha vela
as minhas veias tortas
o meu mau feitio
o meu pessimismo

Eu não quero a minha perfeição
nem o meu verso
ou o meu afago
nem a minha compreensão
ou a minha rima


Eu quero a minha dor mais profunda
o meu segredo mais sombrio
a ferida que mais me sangra
o que te inquieta,
o que te incomoda
o que odeias

Deixe-me estar imperfeita
esquecida
inacabada
Esta também  sou eu
Esta sobretudo sou eu.

Se não és capaz de amar a minha sombra
esquece-te também da minha luz


Mª Lucas

Dois Segundos


O meu vício é pelo precipício
Soltar as amarras do peito e navegar sem velas no vento do teu desejo
O teu vício é o do porto seguro
Manter-se ancorado ao riso fácil e ao beijo sem gozo

Mas se chegares, trazido por correntes do Sul, perdido.. 
apenas por um acaso… ou por algum destino caprichoso,
E deres à minha costa, ou ao meu ventre, ou ainda ao vão das minhas coxas...

Não te demores!
Eu aviso.

Permitir-te-ei apenas dois intermináveis segundos.
Passados estes, beberei do teu hálito e nascerá uma estrela
Esconderei meus seios em teu peito nu, e tu, 
o teu mastro em meu perfume
Que sangra um oceano de saudades.
Sentirei o gosto dos teus gemidos e a rigidez do teu desejo
E com doce brutalidade, gritarei (sem cessar) o teu nome, 
ultrapassando todos os verbos, marés e continentes.
Até que me faltem as forças e me baste a felicidade da tua boca, 
delicadamente poisada em meus olhos.

Não, não te demores!
Eu aviso.

Se deixares que passem os tais intermináveis dois segundos
Deixar-te-ei apenas partir se levares contigo meu mundo inteiro nos bolsos
E meus dois seios amarrados às linhas das tuas mãos.


Mª Lucas

A Singeleza das Coisas


Descobrir o segredo de cada palavra que calas
Andar debaixo da sombra do teu carinho
Vestir na pele o beijo da tua saudade
Ter no vão dos dedos o cheiro dos teus cabelos
E ter-te sempre, ainda que distante, dentro de mim.


Mª Lucas