19 de dezembro de 2017

Desassossego



Eu não queria esse desassossego de asa, essa inquietude de pássaro.
bastava-me a sonolência das sestas e a quietude das poças
mas qual o que, eu nasci com a curiosidade no olho e a fome do passo
fosse eu um Deus, concedia-me o voo das gaivotas, não o ritmo dos colibris
mas a morte tem pressa e eu ainda tenho um par de sonhos nas mãos

Maria Lucas

3 de dezembro de 2017

Essa coisa de amor

Imagem: Pinterest


Quero falar-te de amor para que me ouças.

Dessa coisa que surge quando menos se espera, 

sem pedir licença aos deuses ou, quem sabe, deles um capricho.

Não falo do amor que nos tolda a vista ou que nos rouba o ar.

Falo do amor que nos comove, do amor escondido nas coisas pequenas, invisíveis até.

No sorriso dos meus dentes quando dizes meu nome depois do “minha querida”, do brilho do teu olho quando digo o teu, depois do “tive tanta saudade!”, de sentir que a tua mão já aqueceu debaixo da minha enquanto conduzes, do café que me levas à cama aos domingos; desse amor que vai sendo construído aos poucos, a cada mecha de cabelo que me afastas dos olhos, de cada vez que te uso como cobaia para uma nova receita, do bom dia pela manhã, do que surge quando te cuido nas febres com mimos e exageros, quando me dizes para que te ligue ao chegar em casa e quando eu me chateio contigo quando não fazes o mesmo.



Não falo do amor que nos tolda a vista ou que nos rouba o ar.

Falo do amor de alvenaria, o que se faz tijolo a tijolo, dia após dia, com o rejunte sólido da reciprocidade.



Quero falar-te de amor para que ouças, mas do amor de verdade,


esse que nos torna capazes de construir o lugar onde se penduram os sonhos.


Maria Lucas




"Nada garante que tu existas

Não acredito que tu existas

Só necessito que tu existas"



David Mourão Ferreira, in “Obra Poética”



1 de dezembro de 2017

Urgência

Foto: Pinterest. Desconheço a autoria


No meu último abismo criei _ à força_  as asas que trago.

No escuro da noite passada, soube _finalmente_ enxergar minha estrela

Aprendi _com as ostras_ a fazer bom uso das dores.

Com o tempo, a perceber que _cedo ou tarde_ elas passam.

E por ter saído incólume de tanto Estio, da saudade de ontem farei outra rima e ao poema de hoje, chamarei _"Urgência"_,

...pois a vida, brincando de desbotar, também passa.


Maria Lucas


“Somente em seu próprio íntimo se vive aquela outra realidade que você deseja”.
(Herman Hesse)

22 de novembro de 2017

Da última vez que morri




Muitas vezes se morre nesta vida; uns mais, outros menos.
Entenda-se por morte o estado que antecede, ou melhor dizendo, qualquer coisa que torne palpável o aroma angustiante do fim.
Da última vez que morri, nasci mil e uma vezes, tal a força com que passei a viver depois do susto.
Dei para morrer um pouco nestes últimos dias. Já nem me lembrava como era intenso conversar com o nosso derradeiro abismo.

Resume-se tudo a uma sala de espera no Instituto de Oncologia.

Sete mulheres comigo. Minhas companheiras de angústia. Sentiriam o mesmo que eu? Penso que sim. O fim tem mais ou menos a mesma cara para todos e trava conversas muito semelhantes. Pensei que sim, pois elas tinham o mesmo olhar, dirigido aos próprios sapatos e o mesmo absoluto desinteresse pelos ruídos de quem passava pelo corredor.

O que importava ali era ouvir o próprio nome, o nome inteiro, recitado de forma despreocupada, pela Senhora Auxiliar.

Era assim. A morte chamava pelo nome e nessa espera cedíamos de bom grado a nossa vez; muito embora soubéssemos que adiar, era apenas agigantar o sofrimento.

Meu sapato tinha uma mancha na ponta que eu nunca havia reparado. Pensei que talvez devesse comprar outro. O pensamento logo foi desviado para a carta. A tal, que me diria que para onde, mais cedo ou mais tarde se vai, não se fazem úteis os sapatos.
A Auxiliar trazia na cara a indiferença e a altivez de quem nunca conversou com o fim, de quem nunca morreu várias vezes e impiedosamente chamava as pessoas pelo nome com o desvelo de uma feirante a vender frutas.

Minhas companheiras entravam uma a uma e não retornavam.

Quanto tempo passaria desde a biopsia até o fim? E eu que tinha tanta pressa de viver, de repente gostava que o tempo voltasse atrás para que eu fizesse tantas coisas de maneira diferente. Fizesse o que nunca tinha tido a coragem de fazer ou mesmo deixasse de fazer outras, como por exemplo ter deixado passar tanto tempo para fazer os exames de rotina.

Hoje a minha mãe fez 82 anos. Dei-lhe os parabéns, mas não desabafei com  ela, embora a vontade fosse muita. Estava só. E tinha mesmo de ser assim. O fim tem de ser solitário, assim como o nascimento.

Fui tentando perceber se tinha tido uma vida de valer a pena, caso ela se acabasse agora.
Senti que ainda faltou muita coisa por fazer, por dizer, por viver.
Tinha gostado de ver um pôr do sol na Toscana, de ver a aurora boreal, de ver a neve, de aprender a  esquiar, de ver os campos de tulipas na Holanda, de fazer um cruzeiro, de um reveillon em Nova Iorque; no entanto, já tinha saudades antecipadas do sorriso da minha filha e das suas piadas inteligentes e de humor negro, mesmo que fossem a gozar de mim.

Mas o fim chega assim, meio sem aviso, desajeitado, descompassado, assim como o meu coração, quando ouvi a fria senhora a chamar-me pelo nome. Ainda tinha do meu ex-marido o último nome. Pensei: tenho que alterar isto. O fim desviou-me o pensamento. Para onde eu ia, os nomes não faziam a menor diferença.

E lá estava eu a aguardar que me tirassem um pedaço do seio para que dali fosse me dada a tão indesejada sentença.
Foram as horas mais angustiantes de toda a minha vida. Cercada de internos de especialidade, que passavam pelo corredor a recitar versos técnicos, tão eruditos quanto assustadores, numa superioridade de quem nunca morreu na vida e (pela aparência quase imberbe) de quem também ainda considera a própria morte como uma quase mentira.  Não a consideramos assim todos  nós, na juventude?

”Um nódulo sólido e de bordos irregulares, com 6 milímetros”, ouvi. Estavam a falar da semente. A semente que faz brotar tudo o que morre.
Depois de vários exames, repetidos uma e outras vezes, finalmente encontrei-me deitada, enquanto uma miúda de pouco mais de 20 anos, procurava em mim a semente que faz brotar tudo o que morre.
O tumor não devia ter 6 milímetros, pois ela estava a ter notórias dificuldades para encontrá-lo, o que me deu um alento miúdo, que foi logo repreendido pelo pensamento: "O fim sempre envia reforços." Foi o que aconteceu.
Finalmente entrou na sala, majestosamente  o Sr Doutor, detentor de um vasto conhecimento de sementes que matam, um imponente homem com seus prováveis cinquenta e tais anos e um sem número de versos técnicos recitados para mulheres como eu.

Esperei a sentença, não sem antes desejar  que ele também tivesse, como eu, morrido algumas vezes nessa vida, o que faria com que suas palavras fossem ao menos ditas com o respeito de quem sabe o que é sentir o cheiro do fim.

Foi seco e lacónico.

Usou o tom abominável de quem se lamenta, por não poder recitar os versos mais brilhantes que sabia, para a plateia de internos que me cercavam, sedentos de conhecimento  e luz científica.


Aos internos não agradou nada.

Para mim, foi um Deus:

"_Não há nada aqui para picar! Tudo aqui é benigno!

E saiu sem dizer palavra, deixando-me uma incredulidade no peito, lágrimas nos olhos e o grito na boca que não consegui calar: "_Doutor, por favor. Pode repetir?

Tudo aqui é benigno! E sorriu... brincando de Deus.

Se alguém perguntar por mim, diga que da última vez que morri, reaprendi a viver.



Maria Lucas



"Se depois de eu morrer, quiserem escrever a minha biografia,
Não há nada mais simples
Tem só duas datas — a da minha nascença e a da minha morte.
Entre uma e outra cousa todos os dias são meus."
F. Pessoa



10 de novembro de 2017

Raiz

Foto: Pinterest- Wattpad


Eu nasci árvore com delírios de pássaro

Com os pés cravados na terra seca, meu poema quer ser asa.

Se ao menos eu acreditasse na leveza das folhas

brotariam de mim todas as vidas que sonhei

mas eu tenho tão somente a altura das sementes

valho-me apenas do que alcança 

o voo da minha palavra.




M. Lucas


4 de novembro de 2017

A crónica de um amor platónico

Imagem: Pinterest



É possível amar um lugar sem nunca tê-lo visto?
Talvez o seja, tal como talvez seja possível também apaixonarmo-nos por alguém em algum retrato.
Alguém como eu, que tenho alma de Don Quixote, é claro. 
Trago este defeito de nascença.

Mas se há algum lugar que amo, esse lugar é Itália.
E irão pensar:  “Claro. Esta pobre alma, malfadada dela maldição de quem só é feliz, se ama, facilmente se encantaria por (mascarada), percorrer as águas de Veneza, conduzida por um gondoleiro, tendo ao lado outro mascarado companheiro, que dias atrás, deixara  seu cadeado vermelho ancorado nas grades da velha Ponte Vecchio, em Florença.
Não sem antes terem feito amor entre as videiras plantadas nas encostas de um velho castelo da Toscana. 
E o que dizer do dia passado nas margens do Lago di Tovel, com uma toalha xadrez, uma garrafa de vinho, queijo, pão e pouco mais. 
Não sei se Pizza estaria realmente inclinada ou se seria mais o efeito do vinho, ou das curvas sinuosas da costa Amalfitana, com seus penhascos carregados de casas coloridas e seu azul de cortar a respiração.”
Quase consigo ouvir os risos e o falar alto daquela gente, pelas ruelas ainda repletas de medievalidade.
Ou os ecos de uma opereta, cantada por uma bela ragazza, enquanto estende brancos lençóis nas varandas de ruas estreitas, repletas de histórias e de sonhos, como os meus. 
Uma pizza, em alguma piazza, conversas soltas, risos, beijos e, é claro...vinho.

Essa é a imagem que tenho de Itália e, sim…esta minha alma "quixoteana" facilmente se encantaria pelos olhos desta fotografia.

Hei-de conhecer (quiçá) quase o mundo inteiro. Haverá tempo para isso. 

Itália, provavelmente não.


Mas se algum dia eu for vista por lá a vender sorrisos, sorriam por mim também, 
pois se assim for, estará comigo um grande amor.
Para mim, em Itália, só assim. 
Até lá, contento-me apenas com a paixão platónica que tenho por aquela espécie de paraiso.

................

Itália!
Quem sabe um dia, mais que uma simples fotografia?



M. Lucas



#Italia #florença #veneza#toscana


22 de outubro de 2017

"In memoriam"

Para que um dia se entenda ...


Maria, Maria, Maria, Maria, Maria, Maria, Maria, Maria, Maria. Maria, Maria.





A Correspondência,
Giuseppe Tornatore.


Em memória de alguém que morreu, 
sem nunca ter havido.

23 de setembro de 2017

Voltar para casa



Sabe aqueles dias em que bate a vontade de fugir, estar só, no meio do nada, num lugar desconhecido? Sentia-me assim...confusa, feito pássaro fora do ninho. Apetecia-me sumir.
Um amigo estranhou a minha ideia e disse que nessas horas o melhor era estar no meio de amigos. Respondi que eu era um bocado bicho do mato...sem ter muita certeza de ser essa a verdadeira razão.
À caminho do Sul, abri a janela do carro.
Senti o calor do Alentejo e o vento no rosto.
Lembrei_me, de súbito,da infância...em que meu maior prazer acontecia sempre em uma manhã de domingo.
Era quando o meu pai me concedia um desejo.
E eu pedia sempre o mesmo.
Leva_me à um lugar que eu não conheça, pai.
Tive essa mesma sensação hoje, apesar de nem ser um domingo.
Senti meu pai ao meu lado e com os olhos marejados, de súbito entendi o porquê de estar aqui
Vamos pai...hoje sou eu que te levo para um lugar que não conheces.

Meu pai sem querer me ensinou que o desconhecido também pode ser a minha casa.


21 de agosto de 2017

O Fio da Meada


Eu já quase me vejo por dentro

e tanto

 que quase sinto na boca o gosto que tenho

essa doce sensação de encontrar o fio da meada

da chave perdida da gaiola fechada

das coisas que voam por dentro de mim.

M. Lucas


O último poema que te escrevo

Amar é um risco. Para mim sempre foi.
Para uns, um dado garantido; para mim, um de seis lados.
Para alguns, um jogo de cartas marcadas; para mim, um castelo delas.
Para uns Terra, para mim Marte

Errei todos os meus amores até hoje.
Não foi por mal ou por propósito, é como costumo dizer.
Na ânsia de acertar o alvo, falhei-o redondamente.
Não por querer, talvez mais por incompetência ou dissonância

Peço perdão por esperar mensagens no fundo das garrafas
por ter procurado aquilo que talvez não existisse,
por ter esperado o dia que nunca vem
por não ter tido certezas quando achavam que eu devia

O fim de um amor deixa os pés exaustos e as mãos vazias 

e o meu silêncio será o último poema que te escrevo



M. Lucas


6 de agosto de 2017

Escrever


Um dia destes me disseram:
Porque escreves se tão poucos comentam?
A resposta só me ocorreu agora.


Escrevo para libertar ideias e cansaços
Há aqueles que pintam, que constroem  templos, que salvam vidas, que cantam, que dançam
Há quem o faça para viver, há quem o faça por recompensa, há quem o faça por prazer. (Essa sou eu)

Eu não escrevo para que me leiam. 
Escrevo para ler-me à mim própria. 
Dar à luz todos os "eus" que nunca nasceram.

E por vezes não há espelho onde eu pareça tão bela...



M. Lucas
Desconheço a autoria da imagem, mas é linda


“Sou apenas um escritor. Um cultivador. 
Um jardineiro. Um florista. 
A minha felicidade flutua entre o estrume 
que deponho na raiz das palavras 
e o aroma que me excita quando acabo de as colher.”

Joaquim Pessoa



 "Escrever é que é o verdadeiro prazer; ser lido é um prazer superficial."

Virginia Woolf



Distância


Oiço-te na ausência de todas as coisas
Nesse silêncio que habita em mim quando não estás

Existes, mesmo contra a vontade de muitos
Contra todas as frias probabilidades matemáticas
Contra as distâncias dos oceanos e das terras
Pela força da minha vontade talvez, 
ou pela coincidência dos teus gestos

Gasto _ por agora_ as últimas metáforas 
e cansada de lucidez adormeço 
à espera de que me ergas as pálpebras 
num beijo de matar todas as sedes

E só então eu te direi um segredo.

A minha felicidade alimenta-se de tudo o que habita em tua boca




M. Lucas

31 de julho de 2017

O Capricho do Tempo


Agora que estás de volta
há mais amanheceres nos meus dias.
As borboletas também vieram 
desobedecendo as primaveras 
e um desassossego quase ritmado bate no peito,
teimosa e pontualmente antes de cada chegada tua.

Contemplo-te em silêncio,
meu modo mais sublime de dizer 
da "desimportância" das palavras 
à beira do teu abraço
E o meu interior perplexo
encharcado de cicatrizes e de receios 
desabrocha aos poucos e com delicadeza 
as paixões e os poemas que guardei só para ti




O tempo te trouxe de volta 

      e eu sorri...



M. Lucas

17 de julho de 2017

Desvarios




Dos desvarios de ontem
sobraram verdades desbotadas,
amores de um lado só.

e eu, que por ti jurei universos
engasguei-me numa ternura que não nasceu

é tarde demais para arrependimentos 
e as asas dos pássaros já voaram para longe dos versos
deixando em turbilhão as ilusões que criei por ti

....e eu que absurdamente tola, pensei um dia ser tão seguro 

este teu chão de estrelas cadentes.




M. Lucas

7 de julho de 2017

Incompletude



Não há muito para dizer sobre o que acabou
decerto que não acabou de repente 
com aviso de sirenes ou rufar de tambores
há coisas que acabam já na semente
vão "desvivendo" naturalmente 
serenamente como as folhas de outono
que sabem que devem e como cair

Tive por ti uma esperança maior que o teu braço
dei-te mais do que devia, pois faziam-te confusão os desperdícios
e eu que sou feita deles
aprendi a economizar moedas, palavras e carinho

Por muitas vezes eu fui feliz no teu colo 
e no meio de nossas “incompletudes” eu até encontrei alento
mas não encontrei  as rimas para os poemas 
de que nem fazias questão

e a cada palavra que calo

morre um pouco o canto 

que me faz viver.



Fazem-me falta os desperdícios...



M. Lucas

6 de julho de 2017

A tua boca





Era tão simples quando te esperava...

Porque não vinhas.

Era tão baço amar a outros...

Porque não vinhas

Eram tão mornos os beijos...

Porque não vinhas

Eram tão frios os dias...

Porque não vinhas


Porque vieste agora estragar a tristeza dos meus dias
e tatuar o verde dos teus olhos em minha retina?
Arrancas-me à força de existires, todos os poemas que guardei à chaves dentro do peito
E o sono foge-me à noite, simplesmente 

porque hoje

A tua boca existe.


M. Lucas

7 de junho de 2017

Uma Carta de Amor



Recebi o teu poema em uma carta fechada

Saí de casa apressada, sem chaves, sem nexo, sem juízo, sem carta.

Um sol a brilhar no peito, e sonhos inteiros à brotar dos olhos.

A carta continuará na mesa…fechada, guardada, selada.

Não despencassem tanto as letras quanto as ilusões, eu até leria o poema

mas deixa que descansem... 

a carta na mesa, 

o sol no meu peito

e este tanto que me brotou dos olhos.



Mª Lucas



Hoje deixa-me a mim só ser feliz,
com todos ou sem todos
ser feliz com o pasto e a areia,
ser feliz com o ar e a terra,
ser feliz,
Contigo,
Com tua boca,
Ser feliz


Neruda_in "Ode ao Dia Feliz"




4 de junho de 2017

O Sorriso dele


Se me perguntassem qual a coisa mais bonita do mundo, eu diria:

"O sorriso"
Se me perguntassem a segunda, eu diria:

"O sorriso dele"

Se me perguntassem a terceira:....

"_Calma, eu diria; Ele está a sorrir. Esperem que pare...não há nada mais belo agora!




Mª Lucas

A Outra Face


Imagem : Selma del Bosco


Eu não quero o que me define. 
Eu quero o meu avesso
o meu defeito
a minha  sombra
Quero o meu dia menos bom
a minha fraqueza
o que me afasta do comum
do óbvio ululante
o que me diferencia
o que me "indefine"



Eu não quero a minha máscara
a minha maquilhagem
o meu brilho
muito menos o sorriso
Quero o meu choro
a minha vela
as minhas veias tortas
o meu mau feitio
o meu pessimismo

Eu não quero a minha perfeição
nem o meu verso
ou o meu afago
nem a minha compreensão
ou a minha rima


Eu quero a minha dor mais profunda
o meu segredo mais sombrio
a ferida que mais me sangra
o que te inquieta,
o que te incomoda
o que odeias

Deixe-me estar imperfeita
esquecida
inacabada
Esta também  sou eu
Esta sobretudo sou eu.

Se não és capaz de amar a minha sombra
esquece-te também da minha luz


Mª Lucas

Dois Segundos


O meu vício é pelo precipício
Soltar as amarras do peito e navegar sem velas no vento do teu desejo
O teu vício é o do porto seguro
Manter-se ancorado ao riso fácil e ao beijo sem gozo

Mas se chegares, trazido por correntes do Sul, perdido.. 
apenas por um acaso… ou por algum destino caprichoso,
E deres à minha costa, ou ao meu ventre, ou ainda ao vão das minhas coxas...

Não te demores!
Eu aviso.

Permitir-te-ei apenas dois intermináveis segundos.
Passados estes, beberei do teu hálito e nascerá uma estrela
Esconderei meus seios em teu peito nu, e tu, 
o teu mastro em meu perfume
Que sangra um oceano de saudades.
Sentirei o gosto dos teus gemidos e a rigidez do teu desejo
E com doce brutalidade, gritarei (sem cessar) o teu nome, 
ultrapassando todos os verbos, marés e continentes.
Até que me faltem as forças e me baste a felicidade da tua boca, 
delicadamente poisada em meus olhos.

Não, não te demores!
Eu aviso.

Se deixares que passem os tais intermináveis dois segundos
Deixar-te-ei apenas partir se levares contigo meu mundo inteiro nos bolsos
E meus dois seios amarrados às linhas das tuas mãos.


Mª Lucas

A Singeleza das Coisas


Descobrir o segredo de cada palavra que calas
Andar debaixo da sombra do teu carinho
Vestir na pele o beijo da tua saudade
Ter no vão dos dedos o cheiro dos teus cabelos
E ter-te sempre, ainda que distante, dentro de mim.


Mª Lucas