19 de outubro de 2016

Autobiografia



Eu nasci na “Cidade Maravilhosa”, mas não me demorei muito tempo por lá. 
Meu pai tinha a mania dos interiores. 
Fui criada entre canas de pesca, mosquitos e tempestades de verão. 
Em casa de minha mãe a porta nunca se trancava, e na mesa cabia sempre mais um prato. 
Tive infância simples, de pé no chão e aprendi a nadar no susto. 
Meu pai tinha o gosto pelas naturalidades. 
Eu cresci meio a contra-gosto. 
Percebia melhor o escorrega do que os saltos altos. 
Entendia mais da poesia dos grilos do que de matemática aplicada. 
Desta última me aproveitei basicamente, por fazer regra de três e por poder contar estrelas.
Eu até gostava da ciência dos livros, mas tinha uma certa predilecção por aqueles feitos com rimas. Não invejava tanto a sabedoria dos sábios, quanto a genialidade das lagartas. 
Por essas e outras, dizia a minha mãe que um dia eu ia ser grande, talvez chegasse às estrelas. 
Minha mãe tinha para mim, a mania das grandezas. 
Depois de grande, não cresci tanto quanto ela esperava, pois minhas certezas são passageiras como água de rio, minha inteligência é mais poética que científica, tenho um fraco por miudezas e andorinhas e a preguiça dos dias de Agosto. 

Sou mais cigarra do que formiga, mas quando é para trabalhar…eu até canto muito bem.

Maria Lucas