17 de março de 2016

Serial Lover



Recentemente li uma entrevista que me tirou do silêncio que durava mais que a conta.

Dizia Jacques-Alain Miller quando lhe perguntaram sobre o amor:

“_Alguns sabem provocar o amor no outro, os serial lovers – se posso dizer – homens e mulheres. Eles sabem quais botões apertar para se fazer amar. Porém, não necessariamente amam, mais brincam de gato e rato com suas presas. Para amar, é necessário confessar sua falta e reconhecer que se tem necessidade do outro. Que ele lhe falta. Os que crêem ser completos sozinhos (ou querem ser), não sabem amar. E, às vezes, o constatam dolorosamente. Manipulam, mexem os pauzinhos, mas do amor não conhecem nem o risco, nem as delícias”.


Eu sobreviví a um “serial-lover”. 
Quem, no fundo não encontrou ao menos um(a), por uma dessas tantas esquinas escusas por onde trilham as paixões?
 Por algum tempo carreguei no sal de muitas lágrimas, a ilusão que roubei daqueles olhos verdes e rasos e, como é normal pensar depois que algo assim nos acontece, achei que não merecia tal desdita.

Hoje penso que eles, os tais “serial-lovers” são necessários. Fazem mesmo parte da cadeia alimentar amorosa da humanidade. Um freio, uma parede, um descarrilamento no comboio onde transportamos as nossas expectativas. É como se aprende logo com Allan Kardec: “…só há duas maneiras de evoluirmos, pela dor ou pelo amor.” 
Meu “serial-Lover” sabia ser feliz sozinho, ao menos devia pensar assim.
Ainda citando Jacques-Alain Miller: “…só um homem pode acreditar nisso…
“Amar, dizia Lacan, é dar o que não se tem”. O que quer dizer: amar é reconhecer sua falta e doá-la ao outro, colocá-la no outro. Não é dar o que se possui, os bens, os presentes: é dar algo que não se possui, que vai além de si mesmo. Para isso, é preciso se assegurar de sua falta, de sua “castração”, como dizia Freud. E isso é essencialmente feminino. Só se ama verdadeiramente a partir de uma posição feminina. Amar feminiza. É por isso que o amor é sempre um pouco cómico em um homem. Porém, se ele se deixa intimidar pelo ridículo, é que, na realidade, não está seguro de sua virilidade”.

Felizmente, o tempo e as mesmas esquinas do caminho, que outrora foram escusas, trouxeram-me hoje o avesso do que encontrei antes.

E mais uma vez corro o risco de parecer ridícula pois, perdoem-me os serial-lovers, os covardes amorosos, os machistas emocionais, os fugitivos sentimentais, mas eu acredito no amor verdadeiro; como acredita Lacan, ou na eternidade do amor, mesmo dos proibidos, como o  jovem Werther de Goethe e até mesmo no “amor amigo” de Aristóteles. 

Acredito, pois conservo a crença inabalável de que “posso com ele” e até o persigo, mesmo que por vezes “ele” tenha o poder de me fazer sentir a mulher mais frágil do cimo da terra, pois dele conheço “os riscos e as delícias”. E, de alguma forma acredito que tudo o que nos acontece tem um motivo, o de nos fazer crescer, de nos tornar maiores e melhores. E o que hoje sei do amor é que só à partir dele é que posso enxergar a mais clara, ofuscante e bela luz do dia e, para o bem ou para o mal, vem basicamente dele essa minha vontade de fazer poesia.


Declaro à partir de agora, findo o meu silêncio!


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