18 de março de 2016

Palavra de Passarinho



Descobri muito tarde a beleza das palavras.
Descobri ainda depois, a beleza da contemplação.
Eu tinha pressa do absurdo. Eu tinha fome do que não bastava.
Saciava-me apenas com o improvável. Era sempre belo o que não acontecia.

Eu não via o deslumbramento que existe nas coisas escondidas debaixo das pedras, no vão dos silêncios, na dança que o vento faz com as saias, as folhas e os risos das crianças nas ruas por onde passo.
Eu não via a vida e ela se ria de mim, da minha urgência de “viver”. Eu, que pensava sabê-lo.

Aprendi a vê-la bem, pelos olhos de um passarinho.

Hoje, no trabalho, olhei pela janela. Se eu gosto do trabalho? Claro. Eu gosto da janela!
Tenho uma janela que me mostra o mundo, e que agora  resolveu contar-me histórias. Na verdade ela sempre me contou, eu é que não a sabia ouvir.

Tenho amigos que descansam dos seus afazeres para beber um café, ou fumar um cigarro, ou jogar conversa fora no bar.
Eu, ultimamente tenho tido a minha janela.
N`outro dia um passarinho pousou nela.
_Vieste dar-me um recado? Eu sorri de mim mesma, mas penso que ele ouviu.
Mais tarde choveu e eu percebi a tristeza do céu. Afinal ela é para todos, diziam-me as gotas na janela.
Voltando à azáfama do trabalho, só parei por ter visto o tal passarinho, novamente à minha janela.
Ele e o sol.
O bichinho olhava-me incrédulo, (ele e o sol) como que a perguntar  o que fazia eu naquele cubículo de concreto, acompanhada apenas de papéis e de uma parafernália de máquinas mortas e deixava a vida lá fora passar impunemente,  na ausência de olhos meus?
Porquê não estás lá fora a celebrar a vida? -dizia ele em tons de passarinho.

Segui,  num impulso, o conselho do astuto bicho.
Lá fora, ao sol, inspirei profundamente  e, como quem nasce,  num instante percebi a beleza de estar viva.

Farei isso todos os dias, antes que seja a minha última chuva, antes do meu último sol.

Descobri muito tarde a beleza das palavras
E a bem  pouco tempo essa  minha capacidade de traduzir passarinhos.

Maria Lucas


Palavras


Palavra dentro da qual estou a milhões
de anos é árvore.
Pedra também.
Eu tenho precedências para pedra.
Pássaro também.
Não posso ver nenhuma dessas palavras que
não leve um susto.
Andarilho também.
Não posso ver a palavra andarilho que
eu não tenha vontade de dormir debaixo
de uma árvore.
Que eu não tenha vontade de olhar com
espanto, de novo, aquele homem do saco
a passar como um rei de andrajos nos
arruados de minha aldeia.
E tem mais: as andorinhas,
pelo que sei, consideram os andarilhos
Como árvore.

- Manoel de Barros, em "O fazedor de amanhecer".