29 de março de 2016

As palavras mais belas


Um belo instante de flor, aquele em que tu me olhas distraído
deixando ver pela fresta do teu sorriso
todas as flores que ainda não me deste.

Peço-te a palavra mais bela e dizes-me: "fica"
Pedes-me a palavra mais bela e digo-te: "sempre"

E se mais palavras pudesse, dirte-ia: "amor"



Mª Lucas.




Vertigem pouca é bobagem




Tenho desejos guardados na ponta dos dedos
feitos para cobrir de cores a tela desbotada do teu dia à dia.
Dá-me em troca a vertigem de andares distraído
naquilo a que gosto de chamar de meu mundo
Que a pele seja a única roupa que nos vista,
O ar seja a única coisa que nos falte
e que a eternidade nos pareça pouco.





Mª Lucas







18 de março de 2016

Palavra de Passarinho



Descobri muito tarde a beleza das palavras.
Descobri ainda depois, a beleza da contemplação.
Eu tinha pressa do absurdo. Eu tinha fome do que não bastava.
Saciava-me apenas com o improvável. Era sempre belo o que não acontecia.

Eu não via o deslumbramento que existe nas coisas escondidas debaixo das pedras, no vão dos silêncios, na dança que o vento faz com as saias, as folhas e os risos das crianças nas ruas por onde passo.
Eu não via a vida e ela se ria de mim, da minha urgência de “viver”. Eu, que pensava sabê-lo.

Aprendi a vê-la bem, pelos olhos de um passarinho.

Hoje, no trabalho, olhei pela janela. Se eu gosto do trabalho? Claro. Eu gosto da janela!
Tenho uma janela que me mostra o mundo, e que agora  resolveu contar-me histórias. Na verdade ela sempre me contou, eu é que não a sabia ouvir.

Tenho amigos que descansam dos seus afazeres para beber um café, ou fumar um cigarro, ou jogar conversa fora no bar.
Eu, ultimamente tenho tido a minha janela.
N`outro dia um passarinho pousou nela.
_Vieste dar-me um recado? Eu sorri de mim mesma, mas penso que ele ouviu.
Mais tarde choveu e eu percebi a tristeza do céu. Afinal ela é para todos, diziam-me as gotas na janela.
Voltando à azáfama do trabalho, só parei por ter visto o tal passarinho, novamente à minha janela.
Ele e o sol.
O bichinho olhava-me incrédulo, (ele e o sol) como que a perguntar  o que fazia eu naquele cubículo de concreto, acompanhada apenas de papéis e de uma parafernália de máquinas mortas e deixava a vida lá fora passar impunemente,  na ausência de olhos meus?
Porquê não estás lá fora a celebrar a vida? -dizia ele em tons de passarinho.

Segui,  num impulso, o conselho do astuto bicho.
Lá fora, ao sol, inspirei profundamente  e, como quem nasce,  num instante percebi a beleza de estar viva.

Farei isso todos os dias, antes que seja a minha última chuva, antes do meu último sol.

Descobri muito tarde a beleza das palavras
E a bem  pouco tempo essa  minha capacidade de traduzir passarinhos.

Maria Lucas


Palavras


Palavra dentro da qual estou a milhões
de anos é árvore.
Pedra também.
Eu tenho precedências para pedra.
Pássaro também.
Não posso ver nenhuma dessas palavras que
não leve um susto.
Andarilho também.
Não posso ver a palavra andarilho que
eu não tenha vontade de dormir debaixo
de uma árvore.
Que eu não tenha vontade de olhar com
espanto, de novo, aquele homem do saco
a passar como um rei de andrajos nos
arruados de minha aldeia.
E tem mais: as andorinhas,
pelo que sei, consideram os andarilhos
Como árvore.

- Manoel de Barros, em "O fazedor de amanhecer". 

17 de março de 2016

Serial Lover



Recentemente li uma entrevista que me tirou do silêncio que durava mais que a conta.

Dizia Jacques-Alain Miller quando lhe perguntaram sobre o amor:

“_Alguns sabem provocar o amor no outro, os serial lovers – se posso dizer – homens e mulheres. Eles sabem quais botões apertar para se fazer amar. Porém, não necessariamente amam, mais brincam de gato e rato com suas presas. Para amar, é necessário confessar sua falta e reconhecer que se tem necessidade do outro. Que ele lhe falta. Os que crêem ser completos sozinhos (ou querem ser), não sabem amar. E, às vezes, o constatam dolorosamente. Manipulam, mexem os pauzinhos, mas do amor não conhecem nem o risco, nem as delícias”.


Eu sobreviví a um “serial-lover”. 
Quem, no fundo não encontrou ao menos um(a), por uma dessas tantas esquinas escusas por onde trilham as paixões?
 Por algum tempo carreguei no sal de muitas lágrimas, a ilusão que roubei daqueles olhos verdes e rasos e, como é normal pensar depois que algo assim nos acontece, achei que não merecia tal desdita.

Hoje penso que eles, os tais “serial-lovers” são necessários. Fazem mesmo parte da cadeia alimentar amorosa da humanidade. Um freio, uma parede, um descarrilamento no comboio onde transportamos as nossas expectativas. É como se aprende logo com Allan Kardec: “…só há duas maneiras de evoluirmos, pela dor ou pelo amor.” 
Meu “serial-Lover” sabia ser feliz sozinho, ao menos devia pensar assim.
Ainda citando Jacques-Alain Miller: “…só um homem pode acreditar nisso…
“Amar, dizia Lacan, é dar o que não se tem”. O que quer dizer: amar é reconhecer sua falta e doá-la ao outro, colocá-la no outro. Não é dar o que se possui, os bens, os presentes: é dar algo que não se possui, que vai além de si mesmo. Para isso, é preciso se assegurar de sua falta, de sua “castração”, como dizia Freud. E isso é essencialmente feminino. Só se ama verdadeiramente a partir de uma posição feminina. Amar feminiza. É por isso que o amor é sempre um pouco cómico em um homem. Porém, se ele se deixa intimidar pelo ridículo, é que, na realidade, não está seguro de sua virilidade”.

Felizmente, o tempo e as mesmas esquinas do caminho, que outrora foram escusas, trouxeram-me hoje o avesso do que encontrei antes.

E mais uma vez corro o risco de parecer ridícula pois, perdoem-me os serial-lovers, os covardes amorosos, os machistas emocionais, os fugitivos sentimentais, mas eu acredito no amor verdadeiro; como acredita Lacan, ou na eternidade do amor, mesmo dos proibidos, como o  jovem Werther de Goethe e até mesmo no “amor amigo” de Aristóteles. 

Acredito, pois conservo a crença inabalável de que “posso com ele” e até o persigo, mesmo que por vezes “ele” tenha o poder de me fazer sentir a mulher mais frágil do cimo da terra, pois dele conheço “os riscos e as delícias”. E, de alguma forma acredito que tudo o que nos acontece tem um motivo, o de nos fazer crescer, de nos tornar maiores e melhores. E o que hoje sei do amor é que só à partir dele é que posso enxergar a mais clara, ofuscante e bela luz do dia e, para o bem ou para o mal, vem basicamente dele essa minha vontade de fazer poesia.


Declaro à partir de agora, findo o meu silêncio!