26 de dezembro de 2016

Quando a estrela riu da serpente



Escondi o teu nome no fundo de um poema  
junto de roupas íntimas, lembranças e serpentinas de outros carnavais.

Já não me arde o peito.
Ainda tocas piano?

As palavras ficaram gastas e não as adivinho mais
Nem sei mais como é um bom beijo,  daqueles que nos afogam de medo.

Não ouço nenhum suspiro ou gemido.
A vida seguiu. Um pouco triste, mas muito recta.
Ficou a lembrança.
Desgastada, desbotada, meio "vintage", quase etérea
mas incólume ao tempo, de teimosa que era.

A serpente dorme, a estela ri de gozo…
com aquele ar inteligente e altivo que só as estrelas têm.

Eu?

Eu tenho saudades do beijo, do cheiro, do quente no peito, do riso solto, 
do instinto, da falta de ar, da transpiração.

Um dia toquei a minha boca, como se da tua se tratasse.

Sacudi a cabeça,..

acordei e sorri de mim.


Maria Lucas




19 de outubro de 2016

Autobiografia



Eu nasci na “Cidade Maravilhosa”, mas não me demorei muito tempo por lá. 
Meu pai tinha a mania dos interiores. 
Fui criada entre canas de pesca, mosquitos e tempestades de verão. 
Em casa de minha mãe a porta nunca se trancava, e na mesa cabia sempre mais um prato. 
Tive infância simples, de pé no chão e aprendi a nadar no susto. 
Meu pai tinha o gosto pelas naturalidades. 
Eu cresci meio a contra-gosto. 
Percebia melhor o escorrega do que os saltos altos. 
Entendia mais da poesia dos grilos do que de matemática aplicada. 
Desta última me aproveitei basicamente, por fazer regra de três e por poder contar estrelas.
Eu até gostava da ciência dos livros, mas tinha uma certa predilecção por aqueles feitos com rimas. Não invejava tanto a sabedoria dos sábios, quanto a genialidade das lagartas. 
Por essas e outras, dizia a minha mãe que um dia eu ia ser grande, talvez chegasse às estrelas. 
Minha mãe tinha para mim, a mania das grandezas. 
Depois de grande, não cresci tanto quanto ela esperava, pois minhas certezas são passageiras como água de rio, minha inteligência é mais poética que científica, tenho um fraco por miudezas e andorinhas e a preguiça dos dias de Agosto. 

Sou mais cigarra do que formiga, mas quando é para trabalhar…eu até canto muito bem.

Maria Lucas

21 de junho de 2016

Hoje não é dia



Em dias como este, de ruas descoloridas e céu de azul embolorado, 
caminho de pés descalços à procura de algo que não existe,
numa teimosia maior que o vazio que me preenche.

Desequilibro-me no oco da existência, 
como se mais não fosse que uma folha que o vento leva, 
à espera da sorte de um pouso leve.

Peço perdão à minha natural alegria, mas hoje não é dia. 
Deixem-me ficar assim, sem sonho ou sono, 
embriagada do mais profundo vazio _ Útero fecundo de onde um dia
essa alegria…quiçá  renascerá.



Maria Lucas


16 de junho de 2016

Eu só sei falar de Amor???






Eu só sei falar de amor??
Como assim??
Foi a minha reacção indignada à pergunta inusitada de um amigo. 
À princípio, como é da minha mais profunda natureza, sempre que me apanham de surpresa com algo que à partida não concordo, recusei o "sim" como resposta (peremptoriamente), como se fosse uma fraqueza, uma limitação, o tal "só saber falar de amor".
Então não economizei meios e arregalar de olhos, para tentar convencê-lo de que o que ele dizia era um absurdo.
Como é possível que alguém pense que eu só falo de amor?
Eu falo de pássaros, das coisas que eu gosto, das pessoas que me tocaram e partiram, ou ficaram. Falo dos rios e os comparo à minha vida. Falo da dança, dos desejos que tive e tenho, da saudade, da infância, falo de pai, de mãe, de filha, de amigos. Falo de sonhos, de liberdade, de paz, de alma e de Deus, falo até de café e de bolhas de sabão.
Como é possível que ele resuma o que eu escrevo à somente “amor”?

_O que é o “Amor” então? Perguntou-me ele, irritantemente sábio. Demais até, pro meu gosto.

É difícil que me faltem as palavras, mas nesse momento permaneci muda, como se fosse possível esquecer o significado da palavra mais linda do mundo, depois de “saudade”, é claro.

Foi então que percebi que afinal ele estava mais do que certo. Eu só sei falar daquilo que que amo….Apenas e tão somente.
E o que amo, nem sempre é limpinho, doce ou colorido. Às vezes é triste, algo nostálgico e até trágico. Mas a vida, no final não é assim mesmo?

Então, meu amigo, por mais que me custe, dou-te razão....

Sim…sim…sim…sim e mil vezes sim.

_Eu só sei falar de amor!


13 de abril de 2016

Refúgio

Foto: MartaSyrko



Fiquemos assim distraídos e distantes da desordem do mundo, do ruído insistente da multidão injustiçada, da ignorância dos homens em nome de um Deus, do hedonismo desenfreado que torna banal o absurdo, da sombra da fome que assoma aos berços, da ganância, da solidão, da violência, da falta de amor e do terror de morrer tão cedo.
Fiquemos assim, colados por dentro, atados de abraços, na quietude de abril. 
E nesse lugar de silêncios onde recolho meus olhos da dura verdade dos homens, onde adormeço cansaços e cobres-me de sonhos, a alegria percorre-me inteira por dentro, como se nada mais houvesse que não fosse o infinito palpável desse amor que é só meu.




Maria Lucas

9 de abril de 2016

Da fragilidade das coisas





Amanhã nao haverá o teu rosto
Nem o encanto absurdo de ver-te.
Amanhã não haverá o teu riso e a casa estará vazia
E entre a varanda e o meu peito, apenas a lembrança do teu colo.

A vida...  este estranho lugar de colecionar saudades.



Maria Lucas

1 de abril de 2016

Santiago de Compostela


 Diante de séculos de história, materializada nas pedras gastas daquele chão; das lendas incrustadas nas colunas imponentes e nas frestas das janelas de então, não encontrei palavras. Caiu-me apenas pela alma, uma lágrima silenciosa, que gritará para sempre dentro de mim o silêncio mudo de dor e fé, dos peregrinos e dos pedintes. 
Eu não entendi Santiago, mas ele colou-se a mim. Lá ficarei de certo modo, incrustada naquelas pedras e quem sabe, nas lágrimas de outro visitante que também ouse escrevê-lo como eu.


Um dia percorrerei o caminho. Dizem que para entender Santiago, há que fazê-lo.

29 de março de 2016

As palavras mais belas


Um belo instante de flor, aquele em que tu me olhas distraído
deixando ver pela fresta do teu sorriso
todas as flores que ainda não me deste.

Peço-te a palavra mais bela e dizes-me: "fica"
Pedes-me a palavra mais bela e digo-te: "sempre"

E se mais palavras pudesse, dirte-ia: "amor"



Mª Lucas.




Vertigem pouca é bobagem




Tenho desejos guardados na ponta dos dedos
feitos para cobrir de cores a tela desbotada do teu dia à dia.
Dá-me em troca a vertigem de andares distraído
naquilo a que gosto de chamar de meu mundo
Que a pele seja a única roupa que nos vista,
O ar seja a única coisa que nos falte
e que a eternidade nos pareça pouco.





Mª Lucas







18 de março de 2016

Palavra de Passarinho



Descobri muito tarde a beleza das palavras.
Descobri ainda depois, a beleza da contemplação.
Eu tinha pressa do absurdo. Eu tinha fome do que não bastava.
Saciava-me apenas com o improvável. Era sempre belo o que não acontecia.

Eu não via o deslumbramento que existe nas coisas escondidas debaixo das pedras, no vão dos silêncios, na dança que o vento faz com as saias, as folhas e os risos das crianças nas ruas por onde passo.
Eu não via a vida e ela se ria de mim, da minha urgência de “viver”. Eu, que pensava sabê-lo.

Aprendi a vê-la bem, pelos olhos de um passarinho.

Hoje, no trabalho, olhei pela janela. Se eu gosto do trabalho? Claro. Eu gosto da janela!
Tenho uma janela que me mostra o mundo, e que agora  resolveu contar-me histórias. Na verdade ela sempre me contou, eu é que não a sabia ouvir.

Tenho amigos que descansam dos seus afazeres para beber um café, ou fumar um cigarro, ou jogar conversa fora no bar.
Eu, ultimamente tenho tido a minha janela.
N`outro dia um passarinho pousou nela.
_Vieste dar-me um recado? Eu sorri de mim mesma, mas penso que ele ouviu.
Mais tarde choveu e eu percebi a tristeza do céu. Afinal ela é para todos, diziam-me as gotas na janela.
Voltando à azáfama do trabalho, só parei por ter visto o tal passarinho, novamente à minha janela.
Ele e o sol.
O bichinho olhava-me incrédulo, (ele e o sol) como que a perguntar  o que fazia eu naquele cubículo de concreto, acompanhada apenas de papéis e de uma parafernália de máquinas mortas e deixava a vida lá fora passar impunemente,  na ausência de olhos meus?
Porquê não estás lá fora a celebrar a vida? -dizia ele em tons de passarinho.

Segui,  num impulso, o conselho do astuto bicho.
Lá fora, ao sol, inspirei profundamente  e, como quem nasce,  num instante percebi a beleza de estar viva.

Farei isso todos os dias, antes que seja a minha última chuva, antes do meu último sol.

Descobri muito tarde a beleza das palavras
E a bem  pouco tempo essa  minha capacidade de traduzir passarinhos.

Maria Lucas


Palavras


Palavra dentro da qual estou a milhões
de anos é árvore.
Pedra também.
Eu tenho precedências para pedra.
Pássaro também.
Não posso ver nenhuma dessas palavras que
não leve um susto.
Andarilho também.
Não posso ver a palavra andarilho que
eu não tenha vontade de dormir debaixo
de uma árvore.
Que eu não tenha vontade de olhar com
espanto, de novo, aquele homem do saco
a passar como um rei de andrajos nos
arruados de minha aldeia.
E tem mais: as andorinhas,
pelo que sei, consideram os andarilhos
Como árvore.

- Manoel de Barros, em "O fazedor de amanhecer". 

17 de março de 2016

Serial Lover



Recentemente li uma entrevista que me tirou do silêncio que durava mais que a conta.

Dizia Jacques-Alain Miller quando lhe perguntaram sobre o amor:

“_Alguns sabem provocar o amor no outro, os serial lovers – se posso dizer – homens e mulheres. Eles sabem quais botões apertar para se fazer amar. Porém, não necessariamente amam, mais brincam de gato e rato com suas presas. Para amar, é necessário confessar sua falta e reconhecer que se tem necessidade do outro. Que ele lhe falta. Os que crêem ser completos sozinhos (ou querem ser), não sabem amar. E, às vezes, o constatam dolorosamente. Manipulam, mexem os pauzinhos, mas do amor não conhecem nem o risco, nem as delícias”.


Eu sobreviví a um “serial-lover”. 
Quem, no fundo não encontrou ao menos um(a), por uma dessas tantas esquinas escusas por onde trilham as paixões?
 Por algum tempo carreguei no sal de muitas lágrimas, a ilusão que roubei daqueles olhos verdes e rasos e, como é normal pensar depois que algo assim nos acontece, achei que não merecia tal desdita.

Hoje penso que eles, os tais “serial-lovers” são necessários. Fazem mesmo parte da cadeia alimentar amorosa da humanidade. Um freio, uma parede, um descarrilamento no comboio onde transportamos as nossas expectativas. É como se aprende logo com Allan Kardec: “…só há duas maneiras de evoluirmos, pela dor ou pelo amor.” 
Meu “serial-Lover” sabia ser feliz sozinho, ao menos devia pensar assim.
Ainda citando Jacques-Alain Miller: “…só um homem pode acreditar nisso…
“Amar, dizia Lacan, é dar o que não se tem”. O que quer dizer: amar é reconhecer sua falta e doá-la ao outro, colocá-la no outro. Não é dar o que se possui, os bens, os presentes: é dar algo que não se possui, que vai além de si mesmo. Para isso, é preciso se assegurar de sua falta, de sua “castração”, como dizia Freud. E isso é essencialmente feminino. Só se ama verdadeiramente a partir de uma posição feminina. Amar feminiza. É por isso que o amor é sempre um pouco cómico em um homem. Porém, se ele se deixa intimidar pelo ridículo, é que, na realidade, não está seguro de sua virilidade”.

Felizmente, o tempo e as mesmas esquinas do caminho, que outrora foram escusas, trouxeram-me hoje o avesso do que encontrei antes.

E mais uma vez corro o risco de parecer ridícula pois, perdoem-me os serial-lovers, os covardes amorosos, os machistas emocionais, os fugitivos sentimentais, mas eu acredito no amor verdadeiro; como acredita Lacan, ou na eternidade do amor, mesmo dos proibidos, como o  jovem Werther de Goethe e até mesmo no “amor amigo” de Aristóteles. 

Acredito, pois conservo a crença inabalável de que “posso com ele” e até o persigo, mesmo que por vezes “ele” tenha o poder de me fazer sentir a mulher mais frágil do cimo da terra, pois dele conheço “os riscos e as delícias”. E, de alguma forma acredito que tudo o que nos acontece tem um motivo, o de nos fazer crescer, de nos tornar maiores e melhores. E o que hoje sei do amor é que só à partir dele é que posso enxergar a mais clara, ofuscante e bela luz do dia e, para o bem ou para o mal, vem basicamente dele essa minha vontade de fazer poesia.


Declaro à partir de agora, findo o meu silêncio!