30 de julho de 2013

Amigos Imaginários




“_Vamos até ali, vem comigo!”

E porque pensei que era para mim, assim meio a estranhar, olhei para a senhora que falava alto e sorria ansiosa à espera de alguém.Não, não era comigo que ela falava e, como a essa hora da tarde já havia muita gente a passar por lá, muita gente se virou também pelo mesmo motivo.Ouvi muito riso escondido, gente a balançar a cabeça para os lados, outros mesmo a rir às gargalhadas, a caçoar da pobre.
Confesso que até mesmo eu senti pena da senhora. Ver coisas, pessoas imaginárias, sair do nosso juízo perfeito, não deve ser algo muito agradável.

Mais à frente vi uma outra senhora vestida de um jeito muito “sui generis”. Calças largas coloridas e amassadas, ténis muito velhos, um casaco verde já puído e o toque mais interessante era um chapéu com abas enroladas, o que lhe dava um ar retro chic, trash, doido….chamem-lhe o que quiserem, mas talvez por isso tive a curiosidade de saber o motivo que a fez parar assim tão bruscamente para a foto que resolveu tirar.
Lá em cima de uma estrutura antiga, havia uma espécie de bebedouro para pássaros, só podia sê-lo, uma vez que estava a uns 3 metros de altura. Duas pombas a banharem-se juntas, espalhando gotas de água que reflectiam a luz do sol, formando uma imagem no mínimo curiosa e bela.
Eu não vi o banho dos pássaros em nenhum dos outros dias em que passei por ali.
Ninguém o viu, só a moça estranha de roupas improváveis e sapatos gastos.
Eu não vi o amigo imaginário da pobre senhora.
Ninguém o viu, só a senhora, de juízo fraco e jeito alegre.
Fez-me pensar quem estará em seu juízo perfeito.
Quem será verdadeiramente feliz.
Quem só enxerga a “verdade” universal?
Ou aqueles que acreditam que há algo para além da nossa encarcerada noção de juízo?


Ok, ninguém ri de nós, pois não temos amigos imaginários. Ninguém caçoa das nossas roupas, pois nos vestimos sempre muito bem e na moda. Estamos todos muito bem encaixados na normalidade burra e monótona da sociedade. Todos ajuizados, certos de que por isso somos muito felizes.
Honestamente e sinceramente….
Precisamos de perceber que talvez a felicidade esteja nesses encantamentos escondidos pelos cantos da vida e não nas explosões de sentidos ou nos prazeres mundanos que o dinheiro compra.
Precisamos procurar pássaros que se banham ao sol.
Precisamos de mais amigos imaginários.

E para quem acha que estou fora do meu juízo perfeito, sorrio como a pobre senhora e sigo em frente com o meu amigo imaginário.
E ele tem nome.
É a poesia que trago no peito.
É ela que me faz ver diamantes nas pedras do meio do caminho.
E porque acredito…o meu caminho tem brilho.
Amanhã comprarei um chapéu de abas enroladas e sairei à procura de pássaros que ninguém vê.
Enviar um comentário