20 de janeiro de 2018

Nascente

Foto: Américo Sperandio

O acaso anda a escrever primaveras nas pedras do meu caminho
e o que eu sinto ainda não tem nome
mas no espaço infinito do meu espanto
borboletas nascem de asas abertas

e voam...

absurdamente...

no vácuo do silêncio
que ainda me habita a boca


Maria Lucas

14 de janeiro de 2018

A minha inigualável retina


Meus olhos sempre veem para além do que se deve ver
tento treinar-me a ver o azul, quando é mesmo o azul
mas nasci com um defeito nas retinas.
"_Teimosa menina!", dizia a minha mãe:
"_Não vês que é apenas um passarinho na janela?"
mas eu jurava que era um anjo.
Minha mãe achava que quando eu crescesse passava.
Qual o quê?
Segui pela vida a coleccionar “desenganos”

Cansada dessa desdita de nascença
mandei fazer uns óculos em um especialista 
que dizia saber da minha cura
e segui os seus conselhos à risca.
Não tirar os óculos nem para dormir
 e cuidar até da própria sombra
Com as lentes, o azul era mesmo azul 
e os pássaros estavam longe de parecerem anjos

Por um tempo fiquei contente, aliviada talvez
mas os dias iam passando e com eles a minha tristeza encontrou ninho.
Era tal o peso nos olhos que eles pareciam colados no asfalto.
Nem mais o azul, nem céus de passarinhos.

Talvez as lentes tivessem ficado gastas 
ou quem sabe  a minha doença piorara
Poderia ter procurado novamente o tal especialista 
mas esta manhã pousou-me na janela um passarinho.
Olhei com atenção e finalmente 
agradeci a minha hereditária maleita
que me deixava pintar o dia da cor que me aprouvesse .
Joguei fora os óculos, por impulso ou por coragem 
sem medo algum do ridículo, sorri de volta ao meu anjo


 e eu posso jurar que ele sorriu de volta...

_"se és de voar, voa"_

M. Lucas
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“Ele carrega nas costas 
minha torre de Babel.
as mil línguas que falo
e outras tantas que calo
Vivemos a imensa astúcia
de trocar intuições”

Adriane Lima




12 de janeiro de 2018

Gaveta das asas

 A Life for a Life I photo by Julia Tsoona

Eu quero aprender a guardar amores em uma gaveta aberta
E deixar que voem livres, sem receio de os perder
Eu quero distinguir as verdades de todas as asas
Entender que nem todo o amor é de amar 
 e nem toda a dor tem de doer
para as que têm...
a poesia me basta

Maria Lucas

19 de dezembro de 2017

Desassossego



Eu não queria esse desassossego de asa, essa inquietude de pássaro.
bastava-me a sonolência das sestas e a quietude das poças
mas qual o que, eu nasci com a curiosidade no olho e a fome do passo
fosse eu um Deus, concedia-me o voo das gaivotas, não o ritmo dos colibris
mas a morte tem pressa e eu ainda tenho um par de sonhos nas mãos

Maria Lucas

3 de dezembro de 2017

Essa coisa de amor

Imagem: Pinterest


Quero falar-te de amor para que me ouças.

Dessa coisa que surge quando menos se espera, 

sem pedir licença aos deuses ou, quem sabe, deles um capricho.

Não falo do amor que nos tolda a vista ou que nos rouba o ar.

Falo do amor que nos comove, do amor escondido nas coisas pequenas, invisíveis até.

No sorriso dos meus dentes quando dizes meu nome depois do “minha querida”, do brilho do teu olho quando digo o teu, depois do “tive tanta saudade!”, de sentir que a tua mão já aqueceu debaixo da minha enquanto conduzes, do café que me levas à cama aos domingos; desse amor que vai sendo construído aos poucos, a cada mecha de cabelo que me afastas dos olhos, de cada vez que te uso como cobaia para uma nova receita, do bom dia pela manhã, do que surge quando te cuido nas febres com mimos e exageros, quando me dizes para que te ligue ao chegar em casa e quando eu me chateio contigo quando não fazes o mesmo.



Não falo do amor que nos tolda a vista ou que nos rouba o ar.

Falo do amor de alvenaria, o que se faz tijolo a tijolo, dia após dia, com o rejunte sólido da reciprocidade.



Quero falar-te de amor para que ouças, mas do amor de verdade,


esse que nos torna capazes de construir o lugar onde se penduram os sonhos.


Maria Lucas




"Nada garante que tu existas

Não acredito que tu existas

Só necessito que tu existas"



David Mourão Ferreira, in “Obra Poética”