7 de setembro de 2021

O lençol e as traças

 


_Toma, minha filha. É teu!


Disse minha mãe, misturando o orgulho nas palavras e no pacote, que me entregou ciosamente, como se de jóias de família se tratasse. 

Quando se casou tinha um enxoval completo e estranhava o porquê de eu não querer um para mim. Guardou por anos o pacote, que me entregou de forma quase solene, o que em nada combinava com a sua simplicidade de mulher da terra. 

Acrescentou ainda em tom saudoso, que o guardou por muito tempo, pois só o entregaria no momento perfeito.

Tenho de concordar que era mesmo lindo. De linho branco com bordado Richelieu e fronhas com monogramas, tom sobre tom, com pequenos detalhes bordados de folhas e flores. Era mais que um lençol, era sobre entrega. Era a mãe, brotada da terra e da chuva, criada a sol e a vento, alimentada da força do próprio braço, que nunca se deitou antes em lençóis de linho e, embora fosse ela quem o merecesse, entregou-o à mim. Eu, que na época não percebia a diferença entre algodão e poliéster, bordado inglês e crochet ou tricot.

Ao abrir o pacote percebemos que estava roído em muitas partes. Talvez por culpa das traças, talvez porque o momento perfeito tarde sempre muito à chegar.

Eu sentei-me na cama, desolada. Um desespero miudinho no peito, como se as traças me fizessem lá dentro o mesmo que fizeram aos lençóis. Não por mim, mas por ela, que esperou quase uma vida pelo momento certo das coisas. Certamente doeria mais nela que em mim. 

Se assim foi, não pareceu. A tristeza durou-lhe bem menos. 

Imediatamente tratou de sacar-me um ensinamento, caso não tivesse ficado claro.

"_Minha filha. A vida é para hoje e não há momento mais importante que o agora!"

Agradeceu pela vida e esvaziou o armário de tudo o que ela e as traças ainda não tinham dado uso.


Não há ontem em minha vida que não tivesse sido grande e a culpa é de minha mãe, das traças e de um lençol


Maria Lucas.

30 de agosto de 2021

Distraída


 


Meus olhos são do castanho mais vulgar que há, e para piorar a situação não funcionam muito bem. 

O que é para ser visto, passa-me ao lado. 

Tenho olho para insignificâncias.

Desde menina que meus olhos me desencaminham. Um dia fiquei uma manhã inteira a observar formigas, aquelas coisinhas a carregar outras coisinhas, como gente a carregar móveis.

Minha mãe chamava para o almoço, como se comer fosse mais importante que se encantar com formigas. Mas eu ia, afinal lá estava meu pai a ameaçar com o cinto de couro para provar o quão certa estava minha mãe.

Com o tempo deixei-me um pouco disso, mas há lá no olho qualquer coisa de incurável. 

E ainda hoje voltaram os sintomas. 

Fui à praça comprar legumes e voltei com três pares de nada nas mãos, além de setenta e três fotografias de flores, de cores e de gente.

Lá de cima meu pai deve ter dito, aliviado...

"Ainda bem que aquela coisa do cinto de couro não fez efeito"

Ainda bem, pai. Ainda bem. 😉

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"Poderoso para mim não é aquele que descobre ouro.

Para mim poderoso é aquele que descobre as insignificâncias (do mundo e as nossas).

Por essa pequena sentença me elogiaram de imbecil.

Fiquei emocionado.

Sou fraco para elogios."


Manoel de Barros

13 de julho de 2021

Setembros

Sonho sempre com a palavra exacta, o verso correcto, o verbo perfeito, para poder descrever o tempo, explicar o vento, a lua suspensa ou os olhos azuis.

Gasto a ponta dos dedos, o dicionário de rimas e quase toda a esperança, em textos tímidos que apenas refletem a pálida luz de minha pobre linguagem.

Enquanto isso, na janela, o sol eloquente, derrama Setembros e encantamentos por sobre o tapete, como se lentamente um menino Deus despertasse.

Espanto-me, calo e descubro que a minha poesia não é algo que se possa escrever.

Minha poesia é o que enxergo

Tenho olhos de ver Deus em tapetes.




M.lucas




17 de junho de 2021

Pela volta das pedras



Quando foi que deixamos de acreditar em magia?

Porque já não nos encanta mais a poeira de fadas no "contra-luz" das janelas?

Já lá vão os dias em que a melhor tradução de riqueza era atirar pedras aos rios e não havia mais bela melodia que a sinfonia das cigarras e dos grilos

Mas a ciência estragou o sonho ao tentar explicar o mundo;

assim como eu _descontente_ procurei entender vaga-lumes.

E onde, no meio da sapiência dos homens,

poderemos um dia resgatar a inteligência da infância?

Talvez no mesmo lugar onde deixamos os sonhos, as pedras

e as preces.


Maria Lucas

(Desconheço a autoria da foto)

25 de abril de 2021

Pai

 




 Fui criada na beira da praia, no vaivém das ondas e das marés.

Perdi cedo o medo do mar e aprendi a guardar-lhe respeito. Culpa de meu pai. Atirou-me ao mar, do barco e sem pena alguma, sob os protestos e os lamentos de minha mãe. Na vida, cheguei a maldizer meu pai umas poucas vezes e essa, sem dúvida, foi uma delas. Tinha métodos muito pouco ortodoxos.
Nesse dia aprendi, não somente a nadar, mas também a perdoar. Penso que foi mais fácil para mim, do que foi para a minha mãe. Eu ao menos tinha a compensação de finalmente ter vencido um medo, que provavelmente me acompanharia pela vida afora.

Meu pai era um homem forte, não só fisicamente. Nunca transpareceu fraquezas ou hesitações. Por um bom tempo pareceu-me a personificação de algum ser mitológico, qualquer coisa entre Hércules e Poseidon. O facto é que meu pai, mesmo a despeito de eu ser uma menina, não me dispensava aconchegos e delicadezas ou carinhos. Eu achava encantador o trato gentil que outros pais, (menos hercúleos) dispensavam às suas filhas e confesso muitas pontas de inveja por isso; mas meu pai queria-me Atena, ou qualquer coisa parecida, no caminho até ela.

Talvez estivesse errado, diriam muitos. Outros (muito poucos), diriam certo.

Desde pequena aprendi a ser forte ou ao menos parecê-lo.

Então um dia saímos de barco para pescar. Teria eu na altura, uns 12 anos. O que é certo é que estranhei o facto de pela noite, já na volta, sentir-me enjoada. Nunca tal tinha acontecido e eu não conseguia compreender o porquê. Eu, que praticamente cresci naquele barco e naquele mar. Certo é que foi violento e acabei por deixar no mar tudo o que estava no estomago e também toda a minha “força” ou a parte “construída” de mim, da qual meu pai tanto se orgulhava.

Senti-me frágil e envergonhei-me. Quase pedi desculpas pela minha fraqueza, mas fiquei calada a olhar para ele…cabisbaixa, pequenina, derrotada.
O ser mitológico resolveu (para minha mais absoluta surpresa) com um sorriso e a ternura de um anjo, abraçar-me. Talvez devido a esse espanto, acabei por derramar um oceano inteiro em seu peito; e assim fiquei, por horas e horas e aos soluços.

Muitos abraços recebi durante toda a minha vida e muitos mais irei receber, certamente; mas nenhum poderá ser comparado àquele, onde toda eu cabia. O meu bem e o meu mal, o  meu grande e o meu pequeno, o meu tudo e o meu nada; e apesar da instabilidade das ondas debaixo de nós, não haveria outro chão mais seguro que o vão daquele abraço com sabor a maresia e a pele de meu pai.

Sim, aprendi com meu pai a ser forte. A não precisar de ninguém, a correr riscos, a ter medo sem me amedrontar, mas naquele dia sem perceber, ensinei-lhe algo. Ensinei-lhe o abraço.

Bem mais tarde, já eu adulta… pediu-me desculpas por todo o seu “mau jeito” em demostrar amor.

Eu sorri.

Dali, felizmente seguiram-se muitos abraços, até o último.
Inesquecível, pelos piores motivos.

Fui eu quem lhe deu a notícia do cancro nos pulmões.
Deve ter sentido coisa parecida com o que eu senti aos 12. Quisera eu dar-lhe o que me deu. Fiz o que pude e ainda sinto o peito molhado e os soluços do meu pai menino. Abracei-o... Por horas. Todo ele. O seu bem e o seu mal, o seu grande e o seu pequeno, o seu tudo e o seu nada.

Não sei se lhe pude servir de grande coisa, mas duvido que em toda a sua vida ele tivesse sido tão amado como foi naquele dia. Por mim, pelo meu peito e pelo vão do meu abraço.

Sei que estás por aí em algum mar a pescar, meu pai; mas quero que saibas que quando preciso de me sentir realmente amada, vou para a beira do mar a espera de sentir o cheiro do teu abraço.

Ao menos tenho a maresia e só por isso….sorrio