17 de junho de 2021

Pela volta das pedras



Quando foi que deixamos de acreditar em magia?

Porque já não nos encanta mais a poeira de fadas no "contra-luz" das janelas?

Já lá vão os dias em que atirar pedras aos rios era sinal de riqueza e a mais bela melodia era o puro canto das cigarras.

Mas a ciência estragou o sonho ao tentar explicar o mundo;

assim como eu _descontente_ procurei entender vaga-lumes.

E onde, no meio da sapiência dos homens,

poderemos um dia resgatar a inteligência da infância?

Talvez no mesmo lugar onde deixamos os sonhos, as pedras

e as preces.


Maria Lucas

(Desconheço a autoria da foto)

25 de abril de 2021

Pai

 




 Fui criada na beira da praia, no vaivém das ondas e das marés.

Perdi cedo o medo do mar e aprendi a guardar-lhe respeito. Culpa de meu pai. Atirou-me ao mar, do barco e sem pena alguma, sob os protestos e os lamentos de minha mãe. Na vida, cheguei a maldizer meu pai umas poucas vezes e essa, sem dúvida, foi uma delas. Tinha métodos muito pouco ortodoxos.
Nesse dia aprendi, não somente a nadar, mas também a perdoar. Penso que foi mais fácil para mim, do que foi para a minha mãe. Eu ao menos tinha a compensação de finalmente ter vencido um medo, que provavelmente me acompanharia pela vida afora.

Meu pai era um homem forte, não só fisicamente. Nunca transpareceu fraquezas ou hesitações. Por um bom tempo pareceu-me a personificação de algum ser mitológico, qualquer coisa entre Hércules e Poseidon. O facto é que meu pai, mesmo a despeito de eu ser uma menina, não me dispensava aconchegos e delicadezas ou carinhos. Eu achava encantador o trato gentil que outros pais, (menos hercúleos) dispensavam às suas filhas e confesso muitas pontas de inveja por isso; mas meu pai queria-me Atena, ou qualquer coisa parecida, no caminho até ela.

Talvez estivesse errado, diriam muitos. Outros (muito poucos), diriam certo.

Desde pequena aprendi a ser forte ou ao menos parecê-lo.

Então um dia saímos de barco para pescar. Teria eu na altura, uns 12 anos. O que é certo é que estranhei o facto de pela noite, já na volta, sentir-me enjoada. Nunca tal tinha acontecido e eu não conseguia compreender o porquê. Eu, que praticamente cresci naquele barco e naquele mar. Certo é que foi violento e acabei por deixar no mar tudo o que estava no estomago e também toda a minha “força” ou a parte “construída” de mim, da qual meu pai tanto se orgulhava.

Senti-me frágil e envergonhei-me. Quase pedi desculpas pela minha fraqueza, mas fiquei calada a olhar para ele…cabisbaixa, pequenina, derrotada.
O ser mitológico resolveu (para minha mais absoluta surpresa) com um sorriso e a ternura de um anjo, abraçar-me. Talvez devido a esse espanto, acabei por derramar um oceano inteiro em seu peito; e assim fiquei, por horas e horas e aos soluços.

Muitos abraços recebi durante toda a minha vida e muitos mais irei receber, certamente; mas nenhum poderá ser comparado àquele, onde toda eu cabia. O meu bem e o meu mal, o  meu grande e o meu pequeno, o meu tudo e o meu nada; e apesar da instabilidade das ondas debaixo de nós, não haveria outro chão mais seguro que o vão daquele abraço com sabor a maresia e a pele de meu pai.

Sim, aprendi com meu pai a ser forte. A não precisar de ninguém, a correr riscos, a ter medo sem me amedrontar, mas naquele dia sem perceber, ensinei-lhe algo. Ensinei-lhe o abraço.

Bem mais tarde, já eu adulta… pediu-me desculpas por todo o seu “mau jeito” em demostrar amor.

Eu sorri.

Dali, felizmente seguiram-se muitos abraços, até o último.
Inesquecível, pelos piores motivos.

Fui eu quem lhe deu a notícia do cancro nos pulmões.
Deve ter sentido coisa parecida com o que eu senti aos 12. Quisera eu dar-lhe o que me deu. Fiz o que pude e ainda sinto o peito molhado e os soluços do meu pai menino. Abracei-o... Por horas. Todo ele. O seu bem e o seu mal, o seu grande e o seu pequeno, o seu tudo e o seu nada.

Não sei se lhe pude servir de grande coisa, mas duvido que em toda a sua vida ele tivesse sido tão amado como foi naquele dia. Por mim, pelo meu peito e pelo vão do meu abraço.

Sei que estás por aí em algum mar a pescar, meu pai; mas quero que saibas que quando preciso de me sentir realmente amada, vou para a beira do mar a espera de sentir o cheiro do teu abraço.

Ao menos tenho a maresia e só por isso….sorrio


24 de fevereiro de 2021

Herança

 


Ainda ontem disseram-me em tom de surpresa que existiam em mim duas pessoas muito distintas uma da outra. Uma jovial, leve e espirituosa, que contrastava com uma mais profunda, muito sensível e bem mais reservada.

Uma delas vive praticamente só no papel. É meu submundo, o meu interno, onde encontro o meu Hades. A da superfície, não é necessariamente superficial. É apenas a minha primavera.Quem conhece a do papel, muitas vezes se decepciona com esta. E quem se habituou com esta, muitas vezes duvida de que aquela também seja eu. 

Às vezes conciliar as duas é tarefa para uma vida inteira e, à procura de definição, como já escrevi no meu prefácio, busco sempre em meu passado.

Então dei hoje por mim a vasculhar o armário das lembranças e dei de caras com esta bela fotografia.

Minha mãe, talvez nos seus 20 anos de idade.

Nunca frequentou escola. Aprendeu a ler sozinha, na cartilha que comprou com as moedas que conseguiu, lavando roupas com as mãos e com os sonhos. Não teve bom berço. Sua estória arrancaria lágrimas até do mais gélido ser humano, e apesar de toda a dor e frustração, dignos de quase holocaustos, trazia no rosto (quiçá de outras vidas) a beleza e a altivez dignas de rainhas ou de deusas. 

Minha mãe não escrevia. Cortaram-lhe os pulsos e quase todos os impulsos mas,  tivesse ela a sorte do meu berço, o mais profundo que um dia eu pudesse escrever, nem lhe tocaria a superfície de qualquer rima, mesmo feita sem apuro. 

Assim absolvo-me os opostos e entendo que fui abençoada pelo berço que me calhou. 

Às vezes penso que é (a profundidade de) minha mãe quem me  escreve as palavras.

Talvez seja mesmo. 

Talvez as almas também sejam hereditárias.

E como diz Cecilia Meireles...

"... O que é preciso é que a alma vá e venha;

e ouça a notícia do tempo. 

O que é preciso é esperar pela estrela

que ainda não está completa..."


Então é contigo, minha filha... 



M. Lucas

Foto: minha mãe ❤️

4 de novembro de 2020

Tecedeira de Ilusões

 

Tecedeira de Ilusões. 




Consta na minha poesia toda palavra vã.

Catalogo-as com a importância das raridades. 

Coleciono, como quem garimpa ouro, frases inacabadas, interrompidas, olvidadas, atiradas ao canteiro das palavras prematuras.

Tenho predileção por palavras desimportantes. Vejo nelas, mais que em quaisquer outras, uma espécie de divindade. Gosto também de belas frases, mas essas não dão luta. Prefiro atirar-me pelos escombros em busca de palavras renegadas, assustadas, revoltadas, sujas de noite e de álcool. Remendo aqui e acolá com pontos de bordado e carinho e gosto de dar-lhes um final inventado, emocionado. Nem sempre feliz, mas invariavelmente inesquecível. Frases assim inacabadas, dão-me a liberdade dos deuses. Arranjo-lhes o destino, como as moiras aos mortais, e eu que tenho tanto ouvido para o quase dito, tomo a liberdade das mães, arranjando frases como quem cose bainhas ou remenda lençóis.

Faço o mesmo com a vida,  e principalmente com os amores. Nada em mim é escasso ou exato. Tenho a tendência ao deslumbre e ao transbordamento Para a poesia não há mal, pelo contrário, porém no que diz respeito à vida e aos amores... No afã de encontrar a felicidade e o sonho, acabava quase sempre por quedar-me a milhas da realidade, o que na maioria das vezes, causava mais dor que prazer

“_Foi Desenganada desde menina pelos médicos!”, dizia minha mãe às suas amigas, balançando a cabeça com o ar pesado e grave como quem vela um moribundo.

Os médicos eram categóricos em relação ao tratamento, mas falharam sempre em chamar pelo nome o meu padecimento. 

Minha mãe sim, era assertiva: "_Sofre de desilusões, pobrezinha!"

Por certo tempo surtiram efeito os chás, os conselhos e o bom senso dos que achavam saber muito mais de mim do que eu. Obediente, meti-os em cápsulas, em doses adequadas ao meu grau de padecimento.

E assim foi. Até que todos os deuses partiram e o que era raro ficou comum. Uma árvore era sempre uma árvore, uma pedra era uma pedra.. e pasmem... Um pássaro, era invariavelmente um pássaro. 

A terapia recomendada realmente reduziu a quase pó as desilusões, que antes costumavam povoar o meu caminho. Meus supostos curadores ficaram felizes e aliviados por finalmente me verem agir como uma pessoa normal. 

"_Viram? Já não escreve mais aqueles exageros, nem nunca mais sofreu por amor.!"

E era suposto que eu fosse feliz. Era suposto sim, mas não foi.

Eu queria decidir sobre pássaros, sobre sonhos, sobre deuses e principalmente sobre  amores. Então, numa manhã de domingo, como tudo o que de realmente importante me acontece (numa manhã de domingo), dei por mim a varrer para debaixo do tapete quase todo o bom senso e uma estante inteira de livros de auto ajuda. 

Há pessoas que nasceram para o sonho. Eu certamente era uma delas. Voltei ao meu destino de moira das palavras e dos amores. Sou tecedeira de ilusões. É delas assumidamente que vivo. Dentro delas sou feliz. Só precisei entender que tanto para viver, quanto para bordar palavras é preciso aceitar certas dores, como uma espécie de efeito colateral da felicidade. E então desse dia em diante, voltei a bordar tudo em minha vida, de poesia e de fantasia. 

Porque o que me seduz é leve, e a verdade…

A verdade é pesada demais para bordar



M. Lucas

23 de outubro de 2020

Ressurreição

 


Ainda que aceitemos por instantes as migalhas e o aperto das paredes, súbito nos damos conta das asas que esquecemos arrumadas no ontem dos armários e na espuma das horas mortas.


É nesse instante em que me encontro e que  bendigo a hereditariedade dos meus delírios de pássaro.


O que me salva é sempre a memória da asa.


Maria Lucas